Eu quase dei na cara de uma pessoa.
Não vou entrar em detalhes, mas foi o tipo de situação onde, se não houvesse uma amiga por perto, teria sido diferente. E foi exatamente isso que mudou o rumo da minha vida profissional.
Essa amiga me contou sobre um curso de gestão da raiva em Nova York. Eu, que sou ariana, filha de italiano, vivia com azia e queimava por dentro literalmente, fui. E o que eu encontrei lá não foi uma técnica de controle emocional. Foi um espelho.
Hoje sou uma das três brasileiras que integram a Associação Americana dos Gerenciadores da Raiva. Na pandemia, aprofundei a formação em Ciência da Felicidade com o professor Tal Ben-Shahar, da Universidade Harvard, hoje parte de um grupo com mais de 3.000 pessoas de 100 países.
O que aprendi nessa jornada virou o centro de tudo o que ensino sobre liderança, tomada de decisão e relacionamentos. E a conclusão mais importante é simples: a emoção que você ignora não some. Ela vira doença, decisão errada ou conflito que você não sabe de onde veio.
O que você vai encontrar neste artigo:
- Por que toda tomada de decisão é emocional, mesmo quando você acha que está sendo completamente racional
- A mentira mais cara que você conta para si mesmo e o custo que ela tem na sua saúde e nos seus resultados
- A diferença entre a montanha-russa saudável e o carrossel das emoções que te trava
- O que a raiva veio te dizer e por que ignorá-la é o maior erro que você pode cometer
- O protocolo prático de gerenciamento emocional para usar no dia a dia e na liderança
- Por que o CEP é mais forte do que o DNA e o que isso significa para quem quer mudar
Por que toda tomada de decisão é emocional (mesmo quando você acha que não é)
A neurociência já provou. A ciência da felicidade confirma. E a minha experiência com milhares de pessoas ao longo dos anos reforça: toda tomada de decisão, por mais racional que pareça, foi contaminada pela emoção. Não tem como fugir disso.
Você pode ter planilhas, dados, análises e comparativos. Mas a escolha final passa pelo filtro emocional. Sempre. A questão não é se as emoções influenciam as suas decisões. A questão é se você conhece quais emoções estão te influenciando e de que forma.
Quem não conhece esse filtro toma decisões no modo automático: reage em vez de responder, explode em vez de posicionar, silencia em vez de comunicar. E depois não entende por que os resultados não chegam.
A boa notícia é que inteligência emocional se aprende. A gente passou anos estudando matemática, física, português. Nenhuma escola ensinou como lidar com o que sentimos. Mas essa é uma habilidade como qualquer outra: com método e prática, qualquer pessoa consegue desenvolver.
A mentira mais cara que você conta para si mesmo
O maior problema que vejo nas pessoas não é a raiva, não é a ansiedade, não é a tristeza.
É a mentira.
Não a mentira para os outros. A mentira para si mesmo.
Quando alguém chega para mim dizendo "ah, eu não tenho raiva, eu sou muito calmo", eu começo a ficar preocupada. Porque aí você olha o histórico de saúde: pressão alta, AVC, derrame, tireoide comprometida, azia crônica, alergia na pele. O corpo sempre fala o que a boca nega.
Mentir para si mesmo é não aceitar o que você está sentindo. É querer impressionar uma plateia, mostrar uma não-vulnerabilidade que consome energia que você não tem. É fingir que está bem quando não está, para não parecer fraco.
O professor Tal Ben-Shahar tem uma frase que mudou minha forma de trabalhar com as pessoas: "Dê a você a permissão de ser humano."
Dê a você a permissão de sentir a emoção que está chegando. Não para ficar nela. Mas para fazer contato com ela, entender o que ela está te dizendo e seguir em frente com mais clareza.
Quando você se expõe de forma autêntica, algo inesperado acontece: você ajuda outras pessoas a se exporem também. As pessoas não pedem ajuda porque estão ocupadas fingindo que não precisam. Parece que hoje é bonito dizer que está com burnout, que está extremamente ocupado. E a pergunta que eu faço é: quem não está?
A diferença entre a montanha-russa saudável e o carrossel que te trava
Felicidade não é estar alegre o tempo inteiro. Pessoa alegre o tempo inteiro ou não está fazendo contato com a realidade ou está tomando alguma boleta muito específica.
Felicidade real está na realidade. E a realidade tem muitas emoções.
O que é saudável não é o carrossel, que é ficar preso numa única emoção, seja ela qual for. O que é saudável é a montanha-russa: saber que ao longo da semana você vai sentir alegria, raiva, tristeza, medo, entusiasmo. E que isso é completamente normal.
O diferencial está em três movimentos: entrar na emoção, entender o que ela está te trazendo de informação, e sair dela para a próxima. Todas as emoções são mensageiras. Todas têm algo para te dizer. O problema não é sentir. O problema é ficar preso numa emoção sem extrair o que ela veio entregar.
A ansiedade, por exemplo. O Brasil é campeão mundial em ansiedade. E dentro da filosofia da ciência da felicidade, a ansiedade é entendida como medo do futuro. Paul Ekman, que ajudou a Disney a criar o primeiro Divertida Mente, descreve a ansiedade como duas emoções combinadas: medo e raiva. O medo do que pode dar errado, e a raiva porque você acha que vai dar errado.
O resultado é uma alimentação constante de pensamentos negativos. E aqui vale uma pergunta direta: quais são as informações que você está escolhendo consumir? Quantidade excessiva de notícias ruins, crimes, catástrofes, deteriora o seu otimismo e a sua capacidade criativa de encontrar soluções. Não é ingenuidade ignorar o mundo. É escolher com mais cuidado o que você deixa entrar.
O que a raiva veio te dizer (e que você está ignorando)
A raiva tem uma reputação horrível que ela não merece inteiramente.
A raiva bota limite. Uma pessoa que nunca sente raiva vai engolindo sapo, engolindo sapo, até que o corpo não aguenta mais. E o corpo mostra: tireoide comprometida, pressão alta, problemas de pele, azia. A raiva entalada vira sintoma.
Mais do que isso: a raiva, muitas vezes, mostra o que você está esquecendo de fazer por si mesmo. Quando você sente raiva de uma situação recorrente, tem uma pergunta que vale fazer: onde está a minha responsabilidade nisso? O que eu poderia fazer diferente? Quantas vezes a gente culpa o dólar, o governo, o vizinho, o outro time, o juiz, sem olhar para dentro e perguntar: o que está acontecendo comigo?
A raiva não precisa de violência para existir. Todos os grandes líderes espirituais da história tiveram seus momentos de raiva. Gandhi fez uma revolução pacífica porque não queria o domínio da Inglaterra sobre a Índia. A raiva estava lá, canalizada de forma construtiva.
O maior mito sobre a raiva é acreditar que "eu sou assim mesmo". Pesquisas com gêmeos univitelinos criados por pais diferentes mostraram apenas 16% de comportamento igual. Isso significa que o CEP é mais forte do que o DNA. Onde você vive, os exemplos que você vê, os ambientes que você frequenta moldam muito mais o seu jeito de ser do que a sua genética.
Isso é libertador. Porque significa que comportamento aprendido pode ser desaprendido. E reaprendido de uma forma que funciona melhor para você.
O protocolo prático para gerenciar na hora que bate
Quando a emoção chega forte, o que acontece no cérebro é específico: em 6 segundos a amígdala aciona e o córtex pré-frontal, responsável pelo raciocínio, desliga. Você literalmente perde acesso às suas capacidades mais racionais nesse momento.
Por isso o protocolo começa antes de qualquer palavra.
Primeiro: respira. A respiração consegue modular a emoção. Não é metáfora. É fisiologia. Uma respiração profunda e consciente já começa a reverter o estado de ativação da amígdala.
Segundo: identifica a razão. Por que isso me incomodou tanto? O que esse gatilho está me dizendo? Quando você conhece seus gatilhos, fica muito mais fácil administrá-los antes que eles te administrem.
Terceiro: ressignifica. Dá para ver essa situação de outro ângulo? Há uma atitude do outro que eu poderia entender melhor antes de reagir? Às vezes vale engolir um sapo temporariamente porque você sabe onde quer chegar e precisa preservar a relação para chegar lá.
Uma dica prática que eu uso: tenho um grupo de "eu comigo mesma" no WhatsApp. Quando vem aquele impulso de mandar um áudio de barraco no grupo da família, mando para o meu grupo particular. Deixo passar uma noite. Na manhã seguinte, na maioria das vezes, o áudio não sai. Porque numa noite a gente acalma e pensa na melhor estratégia.
Para a liderança, o impacto é ainda mais direto. O Brasil perde 38% das horas produtivas por estresse no trabalho. A média mundial é 17%. E o líder influencia entre 70% e 80% do clima emocional da equipe. Quando o líder não gerencia as próprias emoções, a equipe inteira paga o preço.
A pergunta que muda tudo
No final de cada curso, de cada palestra, de cada conversa, eu deixo uma pergunta.
Não é sobre técnica. Não é sobre protocolo. É uma conversa franca que você precisa ter consigo mesmo:
"Isso que eu estou sentindo está me ajudando ou está me piorando?"
Simples assim. E incrivelmente difícil de responder com honestidade.
Porque quando você começa a fazer essa pergunta com regularidade, algo muda. Você para de reagir no automático. Começa a perceber os padrões. Entende quais situações te ativam e por quê. E com o tempo, passa a responder em vez de reagir.
A felicidade não é um destino. É uma prática. É a capacidade de estar presente no que está acontecendo agora, sem projetar ansiedade para o futuro nem carregar ressentimento do passado. É saber que vai ter muitas emoções na semana, recebê-las como mensageiras e extrair o que cada uma tem para te entregar.
Respira, inspira e vê se não pira. Com leveza e presença, tudo muda.
Em setembro, vou aprofundar isso ao vivo no HJ Conference da A9, em Concórdia, Santa Catarina, de 24 a 26 de setembro. Trago o conteúdo de gestão das emoções na prática, com ferramentas aplicáveis desde o dia seguinte.
Garanta o seu lugar: hjconference.com.br
Patrícia Santos







