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    Você não tem um problema com dinheiro. Você tem um problema com emoções

    Depois de anos estudando finanças comportamentais, cheguei a uma conclusão que contraria o que a maioria aprende: o que impede as pessoas de construir um resultado financeiro sustentável não é falta de conhecimento sobre planilhas. É falta de autoconhecimento.

    Cássia TernusDoutora em Economia
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    Você não tem um problema com dinheiro. Você tem um problema com emoções5 min

    Me formei em economia. Fiz doutorado. Passei anos dentro de universidades estudando e ensinando finanças.

    E hoje digo, sem hesitar, que a planilha não é o centro do problema.

    Quando comecei a trabalhar com finanças comportamentais, uma das primeiras coisas que precisei desconstruir foi a crença de que as pessoas se perdem nas finanças por falta de habilidade com números. A conta de finanças pessoais não é difícil: soma, subtração, juros simples, juros compostos. É isso. Qualquer pessoa com acesso ao ensino básico consegue fazer esses cálculos.

    O que complica não é a matemática. É o que acontece dentro de nós no momento em que vamos decidir.

    O que você vai encontrar neste artigo:

    • Por que o problema financeiro da maioria das pessoas não é numérico
    • Como tristeza, alegria e estresse moldam suas decisões de consumo sem que você perceba
    • Por que o termo "reserva de emergência" pode estar sabotando você — e o que usar no lugar
    • O ponto de partida real para quem quer construir um resultado financeiro mais sólido

    O cálculo é simples. O que complica é quem está fazendo o cálculo.

    Quando as nossas emoções estão muito potencializadas, seja para o lado positivo ou negativo, perdemos parte do nosso crivo racional. É como se o lado mais lógico da nossa tomada de decisão ficasse embaçado. Toda a expertise que acumulamos, todo o conhecimento que desenvolvemos, fica menos acessível exatamente no momento em que mais precisamos dele.

    Isso não é fraqueza. É biologia. E acontece com todo mundo, independente de quanto você sabe sobre finanças.

    O problema é que a maioria das pessoas nunca foi ensinada a reconhecer esse mecanismo. Aprenderam a fazer orçamento, a usar planilha, a calcular juros. Mas não aprenderam a observar o próprio estado emocional antes de abrir o aplicativo do banco ou colocar um produto no carrinho.

    É exatamente aí que mora a raiz de boa parte das decisões financeiras que a gente depois lamenta.

    Tristeza compra. Alegria exagera. Você precisa conhecer os seus padrões.

    Existe um padrão que observo com muita frequência: quando estamos tristes, estressados ou sobrecarregados cognitivamente, sentimos um impulso de consumir. Isso não é falta de caráter. Comprar libera o hormônio do prazer. É um alívio momentâneo. O delivery, as compras online, o item que não estava nos planos, tudo isso aparece como uma válvula de escape quando a pressão interna está alta.

    O problema é que o alívio dura pouco. A fatura do cartão dura mais.

    Quando perceber que está triste, sobrecarregada ou com uma tarefa difícil à frente e que isso te puxa para um ambiente de consumo, uma das estratégias mais simples e eficazes é criar barreiras. Não deixar o cartão salvo nos sites. Fechar as abas de loja. Colocar um passo a mais entre o impulso e a compra.

    Mas não são só as emoções negativas que nos prejudicam. As positivas também cobram seu preço.

    Quando estamos muito felizes, muito eufóricos, muito confiantes, sofremos o que se chama de viés de excesso de confiança. A sensação de que tudo vai dar certo, de que o futuro vai resolver, de que hoje a gente pode gastar porque amanhã vai entrar mais dinheiro. É quando aparecem as frases "só se vive uma vez" e "hoje é por minha conta". Esses momentos têm lugar na vida, mas é importante entender quando eles cabem no orçamento e quando estão sendo financiados no débito emocional do mês seguinte.

    Autoconhecimento, nesse contexto, não é um tema de desenvolvimento pessoal. É uma ferramenta financeira.

    Por que eu parei de falar em "reserva de emergência"

    Aqui eu vou contrariar um consenso do mercado financeiro. Faz tempo que não uso o termo "reserva de emergência" no meu trabalho. E tenho um motivo comportamental para isso.

    Quando você pensa em emergência, o que vem na sua cabeça? Uma ambulância. Um hospital. Uma doença grave. Algo muito ruim acontecendo.

    Agora me diz: por que você se privaria de coisas que gosta, cortaria gastos, resistiria a impulsos de consumo, para guardar dinheiro numa conta cuja finalidade, na sua cabeça, é financiar um desastre?

    As palavras têm peso emocional. E quando associamos a reserva a um cenário negativo, o nosso inconsciente trabalha contra o engajamento com o processo. Guardamos menos. Adiamos mais. Achamos sempre que tem outro momento melhor para começar.

    Prefiro falar em reserva financeira, ou reserva de oportunidade. Porque além de proteger você numa situação difícil, ela também é o que te dá liberdade para dizer sim quando uma boa oportunidade bate na porta. Um negócio que surge. Um curso que aparece. Uma decisão que exige segurança para ser tomada com clareza.

    Quem tem reserva toma decisões diferentes. Não porque tem mais dinheiro, mas porque não está tomando decisões sob pressão.

    E quanto guardar? Os guias financeiros dizem de três a seis meses do custo de vida. Esse é um objetivo válido. Mas se você está lendo isso e não tem nada guardado, o número que importa agora é um: qualquer um. Comece com o que você consegue. Porque se você não começar, nunca vai ter três meses guardados. Ninguém começa pronto.

    O feijão com arroz que coloca você à frente da maioria

    Se você quer mudar o seu resultado financeiro e não sabe por onde começar, o ponto de partida é mais simples do que parece. E vai colocar você à frente de uma parcela enorme da população brasileira se você realmente fizer.

    Saiba quanto você ganha e quanto você gasta. Registre.

    Não confie na contabilidade mental. Ela falha sempre, especialmente nas despesas pequenas e esporádicas: o café, o delivery, a roupa, o item comprado sem planejamento. As despesas grandes e recorrentes a gente não esquece. As que nos surpreendem no extrato são as outras.

    Identifique suas fontes de renda e os dias em que o dinheiro entra. Organize o calendário financeiro de forma que você receba antes de gastar. Parece óbvio, mas muita gente paga boletos com data anterior ao dia em que o salário cai, e o problema não é falta de disciplina. É falta de organização do fluxo.

    Depois que esse básico estiver registrado, o próximo passo é analisar estrategicamente: o que fica, o que corta, o que pode ser trocado por algo que traz mais resultado ou mais satisfação. Nem sempre a resposta é cortar. Às vezes, é aumentar a receita. Às vezes, é realocar o orçamento de uma forma que gere mais paz de espírito.

    E quando sobrar algum valor, mesmo que pequeno: pague a si mesmo primeiro. Inclua-se no rol de compromissos que precisam ser honrados. Primeiro a reserva. Depois os outros.

    Em setembro, vou aprofundar tudo isso no HJ Conference da A9, em Concórdia, Santa Catarina, de 24 a 26 de setembro. Serei a madrinha da trilha de Finanças, que vai cobrir desde o cenário econômico até o aspecto comportamental, com ferramentas práticas para você sair do evento e aplicar na segunda-feira, seja na vida pessoal ou no negócio.

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    Aprofunde seus conhecimentos na prática.

    No HJ Conference da A9, você aprende presencialmente com especialistas que vivem grandes operações todos os dias e se conecta com empreendedores em movimento.